Cuidado com o que Deseja aposta no suspense psicológico, mas tropeça nos clichês e nas conveniências do roteiro

O que você faria para escrever o livro perfeito? Em Cuidado com o que Deseja (La Silla), o escritor Daniel Lonces decide ir além da imaginação e experimentar na própria pele as sensações de seu personagem. O problema é que a experiência toma um rumo inesperado, e o que deveria durar apenas duas horas se transforma em um pesadelo.
Dirigido por Ángel de la Cruz e estrelado por Jaime Lorente, conhecido por seus trabalhos em La Casa de Papel e Élite, o suspense psicológico espanhol parte de uma ideia simples: um escritor de terror pede à esposa que o amarre a uma cadeira e tape sua boca para que ele compreenda melhor as emoções que deseja retratar em seu próximo livro. Quando um acidente acontece dentro de casa, ele fica impossibilitado de ajudar a própria família e precisa encontrar uma maneira de escapar.
A premissa tem potencial para construir uma história sufocante sobre impotência, culpa e desespero. Entretanto, apesar de alguns momentos de tensão, o filme acaba recorrendo a situações tão convenientes para o roteiro que fica difícil se envolver completamente com o que está acontecendo.
A demora para o suspense começar
Um dos problemas de Cuidado com o que Deseja é o ritmo. Com aproximadamente 1h19 de duração, o longa parece demorar para chegar ao ponto principal da história. A introdução apresenta a rotina do escritor, seu trabalho e sua vida familiar, mas a ação que realmente movimenta a trama leva tempo para começar.
O filme também apresenta, logo no início, a mãe de um garoto que morreu depois de ler um dos livros do protagonista. Durante o lançamento da obra, ela confronta o escritor e exige um pedido de desculpas. A situação levanta questões interessantes, mas a maneira como essa história é introduzida deixa dúvidas sobre sua relação com o restante da narrativa.
Mais tarde, a mulher volta a aparecer, liga para o escritor e diz que não entendeu o pedido de desculpas. A situação fica ainda mais estranha quando ela aparece diante da casa dele, sem que o filme esclareça satisfatoriamente como conseguiu suas informações de contato ou por que sua presença é tão importante para a história.
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A impressão é de que o roteiro apresenta um mistério que deveria ter grande relevância, mas não desenvolve suas implicações de maneira suficientemente clara. Em vez de aumentar a curiosidade, essas passagens acabam provocando questionamentos sobre a coerência da narrativa.
Quando o desespero depende de coincidências demais
A situação muda quando o protagonista fica preso à cadeira e descobre que não consegue se libertar. Sua esposa sofre uma queda, bate a cabeça e fica caída no chão, enquanto o bebê permanece desamparado. A partir daí, o escritor precisa assistir à tragédia sem conseguir ajudar.
É nesse momento que o filme encontra sua principal oportunidade de construir um suspense eficiente. A limitação física do protagonista, a passagem do tempo e a necessidade de encontrar uma saída poderiam sustentar uma experiência angustiante. Afinal, o personagem está consciente, percebe o que acontece ao seu redor, mas não consegue agir como gostaria.
O problema é que o roteiro começa a acumular obstáculos e oportunidades de resgate desperdiçadas.
Um entregador chega à casa, escuta o choro do bebê e estranha a ausência de resposta, mas vai embora. A amante do escritor tenta entrar em contato com ele, mas não percebe a gravidade da situação. Os fogos de artifício começam a estourar no bairro justamente quando ele precisa gritar por socorro. Mais tarde, um casal de amigos aparece à porta, ouve barulhos pelo interfone, não consegue compreender os sons e decide ir embora.
Enquanto isso, o protagonista passa horas preso, sente fome, chora, perde o controle da situação e tenta desesperadamente chamar a atenção de alguém.
Individualmente, algumas dessas circunstâncias poderiam funcionar em um suspense. O problema é o acúmulo. A cada nova tentativa frustrada de conseguir ajuda, fica mais difícil acreditar que todas as oportunidades precisem terminar da pior maneira possível.
O bebê e as cenas que deixam mais dúvidas do que tensão
A presença do bebê deveria ser um dos elementos mais emocionalmente fortes da história. O pai está preso, escuta o filho chorar e não consegue atendê-lo.
Entretanto, algumas transições são rápidas demais. Em determinado momento, o bebê aparece mexendo nos objetos e, depois de um corte brusco, surge caído no chão, com a fralda suja. A sequência deixa a impressão de que algo aconteceu, mas não oferece uma construção visual clara para que o espectador compreenda a situação.
A narrativa também mostra o protagonista tentando usar os poucos recursos disponíveis para pedir ajuda. Ele consegue retirar a fita que cobre sua boca usando a maçaneta, tenta chamar pelo filho e, posteriormente, recorre à Alexa para solicitar assistência. Quando o celular descarrega, tenta utilizar o computador para enviar um e-mail.
São soluções que fazem sentido dentro da premissa, mas a sucessão de falhas torna a experiência repetitiva. O personagem tenta uma alternativa, algo dá errado, ele encontra outra possibilidade e novamente surge um obstáculo.
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O suspense acaba dependendo menos da criatividade do protagonista para escapar e mais de uma sequência de impedimentos que parecem cuidadosamente organizados para mantê-lo preso.
À medida que o tempo passa, o escritor começa a apresentar sinais de deterioração física e psicológica. Com fome, exausto e desesperado, ele passa a alucinar.
Uma das sequências mostra o personagem acreditando que conseguiu se libertar. Ele vai ao banheiro, onde percebe sangue saindo da pia junto com a água. Ao retornar à sala, encontra a si mesmo ainda preso à cadeira e percebe que tudo não passou de uma alucinação.
A ideia poderia contribuir para confundir o espectador e reproduzir a perda de controle mental do protagonista. No entanto, a sequência é tão rápida que fica relativamente fácil perceber que aquela liberdade não é real. Em vez de explorar a dúvida por mais tempo, o filme revela a natureza da alucinação quase imediatamente. Isso reduz o impacto de uma cena que poderia ser mais perturbadora.
Um suspense que lembra outras histórias de confinamento
A sensação de familiaridade também pesa contra o filme. Histórias sobre personagens presos, sem meios imediatos de comunicação e obrigados a encontrar uma saída já foram exploradas diversas vezes no cinema.
Enterrado (Buried, 2010), por exemplo, acompanha um homem que precisa sobreviver preso em um caixão, contando com recursos extremamente limitados. Já Oxigênio (Oxygène, 2021) apresenta uma protagonista confinada em um espaço fechado, tentando descobrir como escapar antes que seja tarde demais.
Outra comparação é Jogo Perigoso (Gerald’s Game, 2017), no qual uma mulher fica algemada a uma cama depois de um acontecimento inesperado e precisa lidar com o isolamento, o medo e as limitações físicas.
As propostas não são idênticas, mas compartilham elementos que exigem muito de um roteiro: manter a tensão em um espaço restrito, encontrar novas possibilidades narrativas sem tornar a história repetitiva e fazer com que cada tentativa de escapar tenha consequências plausíveis.
Em Cuidado com o que Deseja, a ideia de um escritor que voluntariamente se submete a uma situação extrema é interessante. O problema é que o desenvolvimento não consegue transformar essa premissa em algo suficientemente original ou convincente. O filme recorre a recursos conhecidos do gênero, mas nem sempre consegue utilizá-los de maneira eficaz.
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Depois, os parentes entram na residência e descobrem o que aconteceu. O escritor fica em coma e enfrenta a perda da esposa e do filho. A história retorna, então, à sua relação com a escrita: ele produz o livro Cuidado com o que Deseja, mas modifica o final. O filme termina com um vídeo de uma família feliz.
A conclusão retoma a ideia central da obra e sugere uma mudança na maneira como o protagonista encara sua história. Entretanto, o desfecho não consegue compensar totalmente as questões levantadas durante a narrativa, especialmente a falta de clareza em torno da mãe do garoto e o excesso de situações que impedem o resgate.
