A Odisseia – Crítica

Quando Nolan anunciou que filmaria uma adaptação da Odisseia, de Homero, muito se comentou sobre se o diretor seria capaz de transpor para as telas a grandiosidade do poema grego.
Entre anúncios de elenco e polêmicas vazias, os trailers foram mostrando que Nolan seria sim capaz de fazer um grande filme.
É inegável que Nolan é um grande realizador, talvez um dos maiores da atualidade, e certamente aquele que consegue o maior financiamento dos estúdios. Mas desde que se atreveu a fazer filmes com orçamentos milionários, ele carrega consigo os mesmos problemas, pelo menos na minha opinião.
Nolan tem uma técnica filmográfica inegável, mas parece ter dificuldade em distinguir profundidade de presunção. Essa linha entre os dois é sutil, mas costuma se revelar no que o filme escolhe explicar e no que escolhe apenas sugerir. Profundidade é confiar que a imagem carrega o peso sozinha; presunção é sublinhar esse peso com diálogo, trilha sonora e montagem, como se o espectador não fosse capaz de sentir sem ser instruído. Nolan tende para o segundo caminho, algo que já aparecia em Interestelar e ficou mais evidente em Oppenheimer. Em Odisseia, essa tendência encontra um material que já é, por natureza, grandioso e mítico, e o resultado é um filme que parece ter medo do próprio silêncio: não alcança nem uma coisa nem outra.
Nolan atribui a Odisseu uma moralidade vinda dos nossos tempos. O Odisseu de Homero é um herói profundamente ambíguo para os padrões contemporâneos: astuto a ponto da desonestidade, violento sem culpa, movido por um código de honra que não se traduz facilmente em termos morais atuais. Ao suavizar essas arestas; ao dar a Odisseu uma consciência mais palatável para 2026, Nolan não apenas traiu o texto original, mas esvaziou justamente o que torna o personagem interessante: a distância entre o herói antigo e o espectador moderno. Uma adaptação fiel não precisa concordar com a moral do texto-fonte; precisa ter coragem de deixá-la incômoda.
A falta de sexualidade dos personagens (já uma marca registrada de Nolan), aparece aqui ainda mais acentuada. Esse traço soa mais grave em Odisseia porque o material de origem é explicitamente carnal: Circe, Calipso, o próprio retorno de Odisseu a Penélope carregam uma tensão erótica que é estrutural ao poema, não decorativa. Ao esterilizar essas relações, Nolan não está apenas evitando um tipo de cena; está removendo uma camada inteira de motivação humana dos personagens, substituindo desejo por dever.
Mesmo com todas essas críticas, porém, Odisseia de Christopher Nolan consegue feitos impressionantes. Ele ainda sustenta o cinema bem feito, aquele que se recusa a ser plastificado, e se aproveita da liberdade que os estúdios lhe dão para colocar tudo o que pode em tela, muito bem feito.
Odisseia tende a se tornar um clássico do cinema. Não tanto pela adaptação em si, mas pelo modo como foi feito, pelo sucesso de bilheteria e por ser, afinal, um filme de Christopher Nolan.
