Fenômeno Zoe X: autora de dark romance supera 400 mil livros vendidos e mantém identidade em anonimato

Autora brasileira, conhecida pela balaclava e pelo pseudônimo, transformou a autopublicação em uma carreira nacional e prepara novos projetos no mercado editorial e audiovisual
Autora brasileira, conhecida pela balaclava e pelo pseudônimo, transformou a autopublicação em uma carreira nacional e prepara novos projetos no mercado editorial e audiovisual (Foto: Material promocional)

Ela não revela o rosto, não assina com o nome civil e mantém a identidade protegida por uma balaclava. Ainda assim, poucos nomes da literatura brasileira contemporânea conseguiram construir uma relação tão próxima com o público quanto Zoe X. Com mais de 400 mil livros vendidos, milhões de páginas lidas no Kindle Unlimited e uma comunidade formada por leitoras que acompanham de perto cada lançamento, a autora se tornou um dos principais nomes do dark romance nacional.

A história começou no Wattpad, em 2016. Zoe encontrou na plataforma um espaço para compartilhar histórias que, até então, permaneciam restritas aos seus arquivos pessoais. No ano seguinte, venceu o The Wattys, premiação internacional promovida pela plataforma, e percebeu que a escrita poderia deixar de ser apenas um projeto particular.

Desde então, já publicou mais de 20 livros, transitando por romance adulto, dark romance, fantasia, romantasia, suspense e outras vertentes. Entre os títulos estão Dark Hand, Bad Prince, Amor Profano: Não Conte ao Seu Pai, A Maldição do Amor e Queimando por Você, primeiro volume da série Malditos Também Amam.

Mais do que se tornar conhecida por um gênero específico, Zoe construiu uma carreira baseada justamente na possibilidade de não permanecer presa a uma única fórmula.

“Eu gosto de escrever as histórias quando elas chegam pra mim. Me cercam. Não me deixando nenhuma alternativa, a não ser escrevê-las”, explica a autora.

Da gaveta ao mercado editorial

A relação de Zoe com a escrita começou muito antes da publicação de seus primeiros livros. Segundo ela, a literatura apareceu ainda na infância como uma forma de lidar com a solidão e criar um espaço de acolhimento.

A decisão de publicar veio posteriormente, quando descobriu as possibilidades oferecidas pela internet. O Wattpad foi a primeira porta de entrada. Depois, a autora passou a estudar o funcionamento da Amazon e encontrou no mercado digital uma oportunidade para transformar a escrita em profissão.

O caminho também envolveu escolhas pouco convencionais. Zoe chegou a cursar Letras, mas abandonou a graduação ainda no segundo semestre por entender que o curso não a aproximaria do objetivo que havia estabelecido para si: tornar-se escritora.

A decisão provocou preocupação na família, mas recebeu apoio dos pais para que tentasse construir a carreira. Na época, ela ainda não tinha os recursos que hoje fazem parte de uma estrutura profissional.

A autora começou praticamente sozinha, contando com o apoio das próprias leitoras para viabilizar capas, revisões e a divulgação de seus livros. Com o passar dos anos, a relação entre autora e público se transformou em uma das principais forças de sua carreira.

Hoje, a escritora atua simultaneamente nos mercados independente e tradicional. A entrada no mercado editorial ampliou a distribuição de títulos como Amor Profano e Queimando por Você, tornando seus livros mais acessíveis para um público que anteriormente dependia de pré-vendas ou de eventos para adquirir suas edições independentes.

28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo; o maior evento cultural da América Latina

O cancelamento que quase fez Zoe X acreditar que sua carreira acabaria

Entre os momentos mais difíceis da trajetória está o lançamento de Under Your Skin. O livro provocou uma forte reação nas redes sociais e levou a autora a ser acusada de plágio.

Segundo Zoe, a discussão surgiu a partir de semelhanças relacionadas à presença de um personagem stalker e a determinados elementos narrativos. A situação ganhou grandes proporções na internet, mesmo antes de uma análise mais aprofundada da obra.

A editora responsável pela publicação do livro que teria sido supostamente plagiado chegou a analisar o caso. De acordo com Zoe, depois de ler sua obra, a própria editora demonstrou interesse em publicá-la.

Enquanto isso, a repercussão negativa nas redes já havia causado um impacto significativo na autora. Ela conta que ficou doente e precisou se afastar durante um período, além de buscar maior acompanhamento profissional.

O livro continua sendo, segundo ela, sua obra mais pesada e também aquela que recebeu mais críticas. Por isso, Zoe não costuma recomendá-lo como porta de entrada para novas leitoras.

A experiência, no entanto, ganhou outro significado quando ela voltou a encontrar o público em uma Bienal do Livro. Mesmo depois da repercussão negativa, uma longa fila de leitoras se formou para encontrá-la.

Foi naquele momento que a autora percebeu que o impacto da obra não poderia ser medido apenas pelas críticas recebidas na internet.

“Não tem problema metade do mundo não gostar”, afirma.

Quando as leitoras se tornam parte da história

A relação com o público é um dos elementos mais marcantes da carreira de Zoe X. Filas de horas em bienais, turnês pelo país, presentes, cartas e até tatuagens inspiradas em seus livros passaram a fazer parte

Uma das leitoras, por exemplo, tatuou no braço uma referência a Bad Prince. Outra viajou do Rio Grande do Sul até Pelotas para encontrar Zoe X durante um evento.

O vínculo não acontece apenas por meio das manifestações visíveis. O que considera mais importante são as marcas deixadas pelas histórias na vida de quem lê.

A relação também aparece nos momentos difíceis. Zoe relata que, durante uma Bienal realizada enquanto enfrentava o luto pela perda de uma leitora que era sua amiga, recebeu acolhimento de outras fãs durante o evento.

A experiência reforçou uma percepção que acompanha sua trajetória: depois que um livro chega ao público, ele deixa de pertencer exclusivamente à autora.

“Quando eu finalizo, ele vira nosso.”

Para Zoe, essa transformação é parte do próprio sentido de escrever. As histórias começam como algo profundamente pessoal, mas ganham novos significados quando encontram pessoas que se reconhecem nelas.

Zoe lançou edições físicas de seus livros por meios independentes e por outras editoras, como a Editora Cabana Vermelha. — Foto: Material promocional.
Zoe lançou edições físicas de seus livros por meios independentes e por outras editoras, como a Editora Cabana Vermelha. — Foto: Material promocional.

Uma autora que não quer caber em uma única caixa

Embora seja frequentemente apresentada como uma das principais autoras brasileiras de dark romance, Zoe X resiste à ideia de limitar sua produção ao gênero.

Sua bibliografia passa por diferentes estilos. A Maldição do Amor, por exemplo, é uma releitura do mito de Hades e Perséfone e combina fantasia, romance e construção de mundo. Bad Prince e Bad Temptation são classificados pela autora como romances bully, e não como dark romance.

Amor Profano aposta em um romance proibido envolvendo uma jovem e um homem 27 anos mais velho e melhor amigo de seu pai. Queimando por Você, por sua vez, mergulha em uma narrativa mais sombria, envolvendo morte, violência, traumas e personagens marcados por conflitos psicológicos.

A variedade também influencia a maneira como Zoe apresenta seus livros às leitoras. Em vez de indicar necessariamente o título mais famoso, ela procura entender primeiro o que cada pessoa gosta de ler.

Para quem prefere fantasia, recomenda A Maldição do Amor. Para quem quer algo mais pesado, há opções como Bad Prince e Queimando por Você.

A estratégia acabou criando um público disposto a experimentar diferentes histórias da autora, mesmo quando elas fogem do gênero pelo qual ela ficou conhecida.

A escrita como experiência quase visual

O processo criativo de Zoe também foge de um modelo tradicional de planejamento. Ela descreve as histórias como algo que surge de maneira espontânea, muitas vezes por meio de cenas que aparecem em sua cabeça antes mesmo de saber exatamente qual será o enredo.

Foi assim com Queimando por Você. A ideia surgiu durante um voo de volta de Salvador. A primeira cena apareceu de forma repentina, dando início ao desenvolvimento da história.

A autora afirma que costuma visualizar as cenas, ouvir músicas relacionadas aos personagens e utilizar meditação como parte do processo criativo. Também busca períodos longe das telas e em contato com a natureza para recuperar a concentração. Os personagens parecem ganhar autonomia conforme a história avança.

No início, Zoe pode passar vários capítulos conhecendo os personagens e entendendo o que eles querem contar. Depois desse período, o ritmo muda completamente. Ela já chegou a escrever um livro de aproximadamente 800 páginas em apenas 40 dias.

Queimando por Você nasceu justamente de um desses momentos de retomada criativa. O personagem Benjamin já existia em uma versão anterior da história, publicada originalmente em 2019 sob o título Inflames. Depois de um período sem conseguir escrever, Zoe decidiu revisitar aquele universo e transformá-lo em uma série.

O resultado foi Malditos Também Amam, cujo primeiro volume chegou ao mercado tradicional com Queimando por Você.

Para a autora, o livro representa também uma retomada pessoal da diversão de escrever.

“Queimando por Você é meu queridinho. Eu acho que é a minha melhor escrita. Eu voltei a me divertir escrevendo”

Do mercado independente às grandes editoras

A trajetória de Zoe acompanha uma transformação maior do mercado editorial brasileiro. Dados divulgados pela Amazon apontam que leitores brasileiros consumiram, em média, 1,7 bilhão de páginas por mês no Kindle Unlimited durante 2025.

No mercado físico, dados da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) apontaram crescimento de 7,7% no faturamento do setor e de 6,5% no número de exemplares comercializados no mesmo período.

Foi justamente nesse ambiente digital que a autora encontrou uma comunidade disposta a investir em escritores nacionais.

Para Zoe X, o mercado de romance, especialmente o romance adulto, teve um papel importante na formação de um público brasileiro disposto a comprar e acompanhar autores independentes.

A autopublicação também permitiu que ela tivesse liberdade para experimentar formatos, gêneros e histórias sem depender inicialmente das estruturas tradicionais do mercado editorial. Ao mesmo tempo, a entrada no mercado tradicional trouxe novas possibilidades de distribuição e alcance.

Amor Profano foi seu primeiro lançamento por uma editora tradicional e alcançou números expressivos na Bienal do Livro do Rio de Janeiro de 2025. Já Queimando por Você ganhou uma turnê nacional, a The Flames Tour, passando por São Paulo, Salvador, Campinas, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre, além de sessões de autógrafos na capital paulista.

A circulação nacional reforçou a dimensão do público construído por Zoe ao longo dos anos.

Sucesso, mistério e Dark Romance: a trajetória da escritora Zoe X

Bienais que mudaram a percepção sobre a própria carreira

Alguns dos momentos mais importantes da carreira aconteceram justamente nas filas das bienais.

Na Bienal de 2022, realizada após o período da pandemia, Zoe chegou ao evento sem sequer ter uma sessão própria garantida. Um problema envolvendo um estande que havia sido contratado deixou a autora e outras escritoras sem o espaço planejado. Mesmo assim, uma sessão foi organizada e o público apareceu.

No dia seguinte, sem sessão marcada, Zoe voltou ao evento como autora independente para vender seus próprios livros. Novamente, leitoras começaram a chegar e formar uma fila para encontrá-la.

O episódio se repetiu de maneira ainda maior em 2023.

Depois de todo o impacto causado pelo cancelamento de Under Your Skin, Zoe chegou à Bienal com medo da reação do público. No entanto, a fila cresceu durante horas. Em determinado momento, alguém avisou que já eram sete horas da noite e ainda havia leitoras esperando.

A lembrança se tornou uma das mais importantes da trajetória da autora.

Ela também destaca como marco sua primeira participação em um palco oficial de Bienal, em 2024, ao lado de Sue Hecker e Lola Bellucci. Antes de subir ao palco, Zoe conta que estava nervosa e insegura por estar diante de um público mais amplo e de um mercado que ainda começava a conhecê-la.

Nos bastidores, recebeu um conselho de Suie Heker que marcou aquele momento: lembrar quem era e assumir o próprio espaço.

A experiência ajudou Zoe a enxergar a própria carreira de outra maneira e a acreditar mais em seu potencial dentro do mercado tradicional.

Agora, ela retorna à Bienal do Livro de São Paulo 2026, que acontece entre 4 e 13 de setembro, no Distrito Anhembi. A autora faz parte da programação oficial do evento e terá novamente a oportunidade de ocupar um palco diante de um público que cresceu junto com sua trajetória.

Os próximos passos

Depois de conquistar espaço no digital, chegar ao mercado tradicional e realizar uma turnê nacional, Zoe X já começa a olhar para um novo objetivo: o audiovisual.

A autora cita como inspiração escritoras que conseguiram levar suas obras para o cinema e o streaming e afirma que gostaria de ver seus próprios livros adaptados.

Ela também pretende ampliar sua presença no mercado tradicional, sem abandonar a publicação independente.

Para Zoe, os dois caminhos oferecem possibilidades diferentes. Enquanto o mercado independente proporciona liberdade criativa e uma comunicação mais direta com as leitoras, o tradicional amplia a distribuição e possibilita alcançar novos públicos.

A autora também trabalha em uma nova história, ainda sem título ou data de lançamento definida. O projeto terá elementos de distopia e sobrevivência, com um cenário de inspiração apocalíptica e um romance considerado por ela bastante diferente de seus trabalhos anteriores.

A previsão é que o livro seja lançado ainda em 2026, mas Zoe prefere não estabelecer uma data definitiva neste momento.

Uma nova fase para Zoe X

Apesar dos números, das filas, dos lançamentos e da expansão para o mercado tradicional, a autora afirma que passou a enxergar a própria carreira de maneira diferente.

Durante anos, o trabalho ocupou praticamente toda a sua vida. Zoe conta que chegou a passar longos períodos trabalhando em sequência, dormindo pouco e colocando compromissos pessoais em segundo plano. A mudança veio quando percebeu que não poderia reduzir a própria existência ao trabalho.

Hoje, a autora procura preservar outros espaços da vida e entende que cuidar de si também faz parte da construção de uma carreira duradoura.

O amadurecimento também alterou sua relação com críticas e cancelamentos. Se antes a reação negativa da internet poderia fazê-la acreditar que sua carreira estava chegando ao fim, agora Zoe diz conseguir separar melhor aquilo que faz parte do debate público daquilo que realmente importa para sua trajetória.

Mais do que os números de vendas, rankings ou posições nas listas da Amazon, Zoe considera que seu maior patrimônio é a confiança construída com o público. É a relação que faz uma leitora olhar para um novo livro e decidir comprá-lo simplesmente por reconhecer o nome na capa.

“Eu acho que eu condicionei o meu público a experimentar, e elas se divertem experimentando o que eu tenho para oferecer.”

É também por isso que a balaclava deixou de ser apenas uma forma de preservar o anonimato. Ela se tornou parte da identidade pública de Zoe X. A autora não precisa revelar o rosto para ser reconhecida. Seu nome, seus livros e a relação com as leitoras já construíram uma marca própria.

No fim, a história que começou como um refúgio contra a solidão se transformou em uma comunidade que ultrapassa as páginas dos livros.

E, para Zoe, talvez essa seja a marca mais importante de todas: não a que pode ser vista, mas aquela que permanece em quem leu.

Os números de Zoe X:

  • Mais de 400 mil livros vendidos, entre físicos e digitais;
  • Mais de 1 milhão de leituras no Wattpad;
  • Top 2 geral da Loja Kindle;
  • Presença recorrente no Top 10 do Kindle com lançamentos independentes;
  • 1º lugar geral no termômetro de vendas da Amazon Brasil com a edição física de Queimando por Você;
  • Mais de 20 livros publicados;
  • Participação em bienais e eventos literários desde 2019;
  • Turnê nacional de Queimando por Você, com passagens por São Paulo, Salvador, Campinas, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre;
  • Participação confirmada na Bienal do Livro de São Paulo 2026.

Os três livros favoritos de Zoe X:

Quando questionada sobre quais obras considera as mais importantes de sua própria carreira, a autora destacou três títulos.

  1. Dark Hand — Para Zoe, a série de cinco livros é seu maior projeto e representa “a coisa mais brilhante” que já criou.
  2. Queimando por Você — O livro ocupa o primeiro lugar entre suas obras individuais. Além da trama, representa uma retomada do prazer de escrever.
  3. A Maldição do Amor — Uma releitura de Hades e Perséfone que levou cerca de um ano para ser desenvolvida e exigiu um processo de construção mais longo da autora.

Regina Soares

Regina Soares, (MTB 0004794/CE) de Fortaleza, CE. Graduada em Jornalismo no ano de 2020 e, posteriormente, Reportagem de Notícias em 2021. Em 2023, fiz um curso de Extensão em Escrita de Viagem. Adoro assuntos sobre saúde, cultura geek e pop, feminices e moda. Sou apaixonada pelos anos 90, curto filmes e jogos clássicos como Crash Bandicoot e Zelda.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *